Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

Guitarra galega e argentina: Um elo comum em Rianjo

Isabel Rei Samartim
jueves, 25 de noviembre de 2021
Mulheres rianjeiras © by Coleção de Xosé Pérez. Concelho de Rianjo. Mulheres rianjeiras © by Coleção de Xosé Pérez. Concelho de Rianjo.
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As partituras para guitarra do Fundo Local de Música da vila de Rianjo refletem a rede de músicos, especialmente a das famílias Pérez e Nine e suas ramificações, os relacionamentos e o tipo de músicas, misturadas com as paixões literárias, que povoaram essa vila galega desde o último terço do século XIX e durante todo o XX, deixando ampla informação guitarrística.

Nesse mundo local de música há também, não podia ser doutro modo, a pegada das relações galaico-argentinas surgidas pela forte emigração. No fim do século XIX o fundo oferece, entre mais elementos, a descoberta de um professor de guitarra e compositor desconhecido, Agustín Gómez, ativo em Buenos Aires, graças à mediação do seu aluno, o rianjeiro e guitarrista, Andrés Pérez García.

Xosé Pérez fotografado pelo seu primo Manoel António. © by Coleção de Xosé Pérez. Concelho de Rianjo.Xosé Pérez fotografado pelo seu primo Manoel António. © by Coleção de Xosé Pérez. Concelho de Rianjo.

Dentre as dezanove obras pertencentes ao século XIX, consultadas nas coleções de Xosé Pérez González (1901-1941) e Xosé Ramón Nine Piñeiro (1895-1936), do Fundo Local de Música, dez delas estão escritas para guitarra só, quatro para um agrupamento de vozes com acompanhamento de guitarras, ou de guitarras e bandurras, e cinco são métodos para guitarra.

Entre os autores mencionados nas partituras estão Giuseppe Verdi, Johann Strauss II, Antonio López Almagro, Eduardo Sánchez de Fuentes, Felipe Paz Carbajal, Ferdinando Carulli, Manuel Sanz, Manuel Peñalba Bañares, Vicente Borrero, Antonio Rubira, Aquilino García, Francisco Cimadevilla, Casimiro Tarantino Nicolau e Agustín Gómez. Todos músicos mais ou menos conhecidos, desde os longamente estudados Verdi e Strauss, passando pelo galego Paz Carbajal, até aos unicamente citados nalgum breve verbete de dicionário. Salvo o último.

Andrés Pérez García, aluno de Agustín Gómez

Manoel António fotografado pelo seu primo Xosé Pérez. © by Coleção de Xosé Pérez. Concelho de Rianjo.Manoel António fotografado pelo seu primo Xosé Pérez. © by Coleção de Xosé Pérez. Concelho de Rianjo.

Todo o que sabemos do guitarrista Agustín Gómez, professor e compositor para guitarra é graças ao conjunto de partituras de Andrés Pérez García, rianjeiro emigrado a Buenos Aires durante o último terço do século XIX. Este possível tio do poeta e violinista Manoel António e do também guitarrista Xosé Pérez González, seria um guitarrista amador de ampla formação, não sabemos se iniciada em Rianjo ou aprendida na Argentina, como aconteceria mais tarde com o próprio Castelão.

Quinteto "Ondiñas da nosa ría", com Manuel Vicente Chapi e outros rianjeiros. © 1995 by Manuel Vicente.Quinteto "Ondiñas da nosa ría", com Manuel Vicente Chapi e outros rianjeiros. © 1995 by Manuel Vicente.

Andrés Pérez poderia ser o terceiro filho de Ramón Pérez Otero, rianjeiro emigrado à Havana nas décadas centrais do século XIX, sendo irmão de Ramón e Manuel [Pérez García]. Andrés seria tio dos também rianjeiros Roxelio e Xosé [Pérez González], e Manoel António [Pérez Sánchez]. O sobrinho Roxerius (1897-1963), nome literário de Roxelio Pérez González, foi também um conhecido escritor rianjeiro cujo nome aparece manuscrito em várias páginas das obras ligadas a Andrés Pérez, podendo ter sido ele um receptor do legado do tio emigrado na Argentina.

Ainda não temos documentos a relacionar Andrés Pérez ou Agustín Gómez com o centro da guitarra em Buenos Aires nesta época que foi a Casa Núñez: oficina de luthier, editora, loja e sala de concertos do baixo-minhoto Francisco Núñez Rodríguez e mais familiares galegos, que já foram tratados em artigo anterior. Em Buenos Aires tinha de haver mais editoras e locais de venda de guitarras na época, mas no caso do rianjeiro Andrés Pérez, e tendo em conta o alto nível musical de Agustín Gómez, seria estranho que não soubessem uns dos outros.

Os métodos de Andrés Pérez

O conjunto de partituras ligadas a Andrés Pérez evidenciam um estudo sistemático do instrumento e uma boa capacidade técnica, que se manifesta nos cinco métodos conservados e outras obras. Este conjunto documenta o período de Andrés Pérez na Argentina entre os anos 1882 e 1891, através das dedicatórias e anotações manuscritas nas margens das partituras:

Capa do «Nuevo método argentino». Coleção de Xosé Perez. © by Fundo Local de Música de Rianjo.Capa do «Nuevo método argentino». Coleção de Xosé Perez. © by Fundo Local de Música de Rianjo.

1) Nuevo método argentino para guitarra. Trata-se dum volume publicado sem marcas de autoria ou edição, em que se explicam os rudimentos práticos da guitarra para amadores através do sistema cifrado. O método, que se acha completo, consta de 20 páginas e está dividido em seis partes. A primeira contém breves explicações técnicas: trastes, colocação das mãos, afinação, escalas, acordes, ligados, compassos e tonalidades. A segunda e terceira contêm exercícios para adquirir fluidez técnica e de leitura. A quarta parte está dedicada à explicação dos acordes e o seu estudo prático. A quinta e sexta partes contêm as danças propostas para o estudo final: Uma valsa, duas mazurcas, duas polcas, um tango, um xote, o pericón nacional e uma habanera.
A falta de mais referências, cabem duas hipóteses: Por um lado, os métodos cifrados poderiam ter servido a Andrés Pérez como inicio dos estudos guitarrísticos, que mais tarde seriam ampliados com Agustín Gómez. Por outro lado, poderia ser que o gosto pela música de sabor argentino levara Andrés Pérez, já guitarrista e leitor da notação moderna, a adquirir os métodos em cifra. Se fosse o primeiro caso, os métodos poderiam ser anteriores e próximos à década de 1880. Se fosse o segundo, caberia a hipótese de serem mais modernos.

Índice do «Método en cifra para guitarra». Coleção de Xosé Perez. © by Fundo Local de Música de Rianjo.Índice do «Método en cifra para guitarra». Coleção de Xosé Perez. © by Fundo Local de Música de Rianjo.

2) Método en cifra para guitarra. Deste método conservam-se unicamente umas poucas páginas em folhas soltas. Está também publicado em cifra, sem marcas de autoria ou edição. Pelo índice conservado, deduz-se que tem uma primeira parte teórica até à página 8, onde se explicam de modo bastante abstrato as técnicas básicas das mãos, a afinação, escalas, compassos, acordes, harpejos, ligados, pestanas, rasgados, tonalidades e uma breve distinção entre o modo de acompanhar seguidilhas, jotas e boleras.

Na página 9 começam os exercícios, na 10 aparece o nome manuscrito de Rogelio Pérez González e na 12 começam já as peças propostas: Escocesa, El Punto de la Habana, Zapateado. Na página 15 estão Vals en La m e Vals de los Tiroleses. Na p. 16, Vals del Contrabandista. Na p. 17, Vals del Jaleo, Rigodon en Do M, Otro rigodon. Na p. 18, Otro rigodon, Milonga. Na p. 19, Escocesa en Re M, Contradanza, Contradanza en Mi m, Galop en Do M. E na p. 20, Bolanchera en La m, La muiñeira en La m, Mazurka en Fa M a 3 tiempos.

O deste método é um repertório europeu, com obras e estilos provenientes do último século XVIII e inícios do XIX, como Vals del Contrabandista, El Punto de la Habana e os rigodões, galopes e contradanças, misturado com repertório argentino (milonga) e galego (moinheira).

O tenor Manuel García, como Otelo em Paris, ca. 1821. © Dominio Público / Gallica.O tenor Manuel García, como Otelo em Paris, ca. 1821. © Dominio Público / Gallica.

O tema do Contrabandista popularizado pelo afamado cantor e compositor andaluz Manuel del Pópulo Vicente García (1775-1832) achamo-lo em várias ocasiões nos fundos galegos: No Arquivo Canuto Berea, intitulado Polo del Contrabandista e arranjado por Francisco Baltar. E também no arquivo de Valdeflores (Viveiro), cujo arranjo para guitarra seria de Bonrostro. Acha-se uma letra deste tema na coleção de folhas volantes conservada nos volumes factícios da Biblioteca da USC.

No mesmo Arquivo Canuto Berea há duas peças da coleção publicada por Romero em 1885, La Sal de España, que também contém o Polo. O tema do Contrabandista figura em versão para voz e guitarra no manuscrito de Luísa Puget (ca.1830) e na coleção de Eduardo Ocón (1874). Como vemos, esta canção foi republicada durante todo o século XIX. Se ela não serve para determinar a data do método, sim ajudará a refletir sobre o tipo de música que se tocava na segunda metade do século XIX na Argentina.

Este método contém, curiosamente, uma moinheira escrita em Lá menor, estruturada em três frases de oito compassos cada uma, salvo a terceira que tem nove. Essa irregularidade, unida aos giros melódicos, muito idiomáticos para guitarra, indicam a possível autoria moderna dalgum guitarrista. A peça continua com um da capo que repete a primeira e segunda frases. Sem termos qualquer evidência sobre a autoria deste método, o facto de ele albergar música galega e argentina levanta a hipótese de o autor ser mais um guitarrista galego emigrado à América, como era o próprio Andrés Pérez García.

Jota aragonesa arranjada por Agustín Gómez, dentro do método de Carulli. Coleção X. R. Nine. © by Fundo Local de Música de Rianjo.Jota aragonesa arranjada por Agustín Gómez, dentro do método de Carulli. Coleção X. R. Nine. © by Fundo Local de Música de Rianjo.

3) Método de guitarra de Ferdinando Carulli. É um exemplar incompleto do método de Ferdinando Carulli (1770-1841) traduzido ao castelhano. Numa das suas páginas aparece a assinatura de Andrés Pérez García, com data de 24 de junho de 1891, em Buenos Aires. Em baixo dessa primeira assinatura pode ver-se a de Rogelio Pérez González, "Roxerius", em Rianjo, em 2 de julho de 1912.

O método está editado com o número de prancha: ‘A.D. 1985 &C’ e nele, anotado à mão, figura um dos endereços de Andrés Pérez García em Buenos Aires: “Bolivar, 959-61”. O volume, ao que faltam algumas páginas, contém no seu interior o interessante manuscrito do guitarrista e professor Agustín Gómez, assinado em Buenos Aires entre outubro de 1882 e janeiro de 1883. Por isso resulta possível imaginar que ambos os documentos, manuscrito e método, pudessem provir da Argentina fazendo um conjunto coerente com o ensino da guitarra no país latino-americano.

Os outros dous métodos, o Cuaderno de Guitarra y Bandurria de Manuel Peñalba Bañares e o Método para guitarra de Casimiro Tarantino Nicolau, pelo seu interesse, serão tratados à parte em próximos artigos.

O manuscrito de Agustín Gómez (1882-1883)

O guitarrista Agustín Gómez escreveu para o seu aluno Andrés Pérez García, em Buenos Aires, três peças de nível guitarrístico médio-alto, entre os meses de outubro de 1882 e janeiro de 1883, baseadas em melodias bem conhecidas e significadas do século XIX europeu.

O manuscrito contém três fólios escritos pelas duas faces, a fazer um total de seis páginas manuscritas em tinta azul. Na primeira e segunda páginas figura anotado o arranjo de Agustín Gómez sobre o tema da popular Jota aragonesa, dedicada ao seu discípulo Andrés Pérez García em 24 de outubro de 1882.

Manuscrito da polca «Maria Taglioni» arranjada por Agustín Gómez. Coleção X. R. Nine. © by Fundo Local de Música de Rianjo.Manuscrito da polca «Maria Taglioni» arranjada por Agustín Gómez. Coleção X. R. Nine. © by Fundo Local de Música de Rianjo.

Na terceira e quarta páginas está anotada a polca de Johann Strauss II intitulada Maria Taglioni, dedicada à grande bailarina italiana e arranjada para guitarra por Agustín Gómez. Na margem direita da página figura a inscrição, com a mesma letra que todo o manuscrito: "Pertenece al discípulo Sr. D. Andrés Pérez (Chile, 296). / Sábado 16 de Diciembre de 1882". Nessa mesma quarta página figura anotado um exercício de acordes em Lá M, para praticar antes de abordar as obras anteriores, as quais trabalhavam essa tonalidade.

A dançarina Marie Taglioni, como A Sílfide, em Paris 1832. © Dominio Público / Gallica.A dançarina Marie Taglioni, como A Sílfide, em Paris 1832. © Dominio Público / Gallica.

A artista italiana, nascida em Estocolmo e falecida em Marselha, Marie Taglioni (1804-1884) foi definida como a bailarina que fixou a imagem da dança, baseada no espectáculo A Sílfide, na ópera de Paris em 1832 (Plaza, 2013, p. 57):

la estampa de María Taglioni, con un tutú blanco vaporoso, suspendida sobre las puntas de sus pies, dibujando sobre las tablas lo que serían los principios indiscutibles de la danza burguesa, y por ello del porvenir. [...] consagró la danza moderna, elevándola a la categoría de un arte escénico similar al dramático o al musical con el que comparte las mismas tablas.

A polca de Strauss tinha previsto ser publicada com um outro título, mas finalmente viu a luz com o nome da artista que lhe deu a fama (Kemp, 2001).

Detalhe do fabricante Cavallo na partitura do Miserere de Verdi, arranjada por Agustín Gómez. Coleção X. R. Nine. © by Fundo Local de Música de Rianjo.Detalhe do fabricante Cavallo na partitura do Miserere de Verdi, arranjada por Agustín Gómez. Coleção X. R. Nine. © by Fundo Local de Música de Rianjo.

Na quinta e sexta páginas do manuscrito de Agustín Gómez estão as duas partes da obra intitulada Miserere del Trovador de Verdi, pertencentes ao 4º ato da ópera Il Trovatore e arranjadas para guitarra nos andamentos: Adagio (D'amor sull'ali rosee) e Ritenuto (Miserere d'un alma già vicina). Esta obra também a achamos arranjada por outro Agustín ou Agostinho Rebel Fernandes, guitarrista e autor de dous métodos a que dedicaremos um próximo artigo. Neste caso a partitura contém a inscrição: "Pertenece al discípulo Sr. Don Andrés Pérez (Chile, 296). / Miércoles 3 de Enero de 1883". Além disso, e como curiosidade, esta página do manuscrito contém gravado em relevo o carimbo de Cavallo, que seria o fabricante do papel.

Detalhe numa das partituras de Agustín Gómez sobre o aluno Andrés Pérez. Coleção X. R. Nine. © by Fundo Local de Música de Rianjo.Detalhe numa das partituras de Agustín Gómez sobre o aluno Andrés Pérez. Coleção X. R. Nine. © by Fundo Local de Música de Rianjo.

Por último, conserva-se um fragmento de outra obra, em folha solta, sem título nem autor, ainda que a letra é a mesma de todo o manuscrito atribuível a Agustín Gómez. A música que se pode ler é de alto nível guitarrístico e estilo que poderíamos denominar latino-americano, e reafirma as suspeitas de Agustín Gómez ser um guitarrista profissional, possivelmente europeu, talvez galego, a trabalhar em Buenos Aires nas últimas décadas do século XIX.

Obra conhecida até ao momento de Agustín Gómez

1) Peça sem título para guitarra, em 3/4, nas tonalidades de Sol M e Dó M, com letra e tinta semelhante à do manuscrito de Agustín Gómez (1882-1883).
2) Jota aragonesa (aire español). “Arreglada para guitarra sola y dedicada al discípulo Sr. Perez, Andres (Chile 295) por su maestro Agustin Gomez (Octubre 24/882)”. Escrita em 3/8 e Lá M.
3) Maria Taglioni. Polka de Johann Strauss II (1825-1899), em 2/4 e Lá M. Datada em 16 de dezembro de 1882.
4) Exercício de acordes em Lá M e 4/4, datado em 1882.
5) Miserere del Trovador de Giuseppe Verdi (1813-1901), em 4/4 e Dó M. Datada em 3 de janeiro de 1883.

 Bibliografia

Comoxo, X. e Santos, X. (2016). Arcos Moldes. Mestre sen escola. O Rianxo do seu momento 1865-1944. Corunha: Deputación da Coruña.
Kemp, P. (2001). Strauss. Sadie, S. (Ed.), The New Grove Dictionary of Music and Musicians, 24, (2ª ed., 474-496). Nova Iorque: Oxford University Press.
Gosálvez Lara, C. J. (1995). La edición musical española hasta 1936. Madrid: Asociación Española de Documentación Musical.
García, M. (1876). Polo del Contrabandista. La Sal de España. Seis canciones populares con acompañamiento de piano forte y guitarra. Madrid: Antonio Romero. BNE, cota: MP/1624/10.
Orjais, J. L. d. P. (2013). Nº 176 - Um gaiteiro anônimo de Rianjo. Blog Ilha de Orjais, 30 de novembro.
Ocón, E. (1874). Cantos Españoles. Colección de aires nacionales y populares. Málaga. 
Orjais, J. L. d. P. (2014). Nº 182 - Pecinhas musicais do arquivo familiar de Manuel Antonio. Blog Ilha de Orjais, 30 de abril.
Pérez, X. (2011): Rianxeiros. O legado de Xosé Pérez. Rianjo: Concelho de Rianjo.
Plaza Orellana, R. (2013). Los bailes españoles en Europa. El espectáculo de los bailes de España en el siglo XIX. Córdoba: Editorial Almuzara.
Puget, L. (ca.1830). Canciones con guitarra. Manuscrito. Biblioteca Digital Hispánica 
Rei-Samartim, I. (2020). A guitarra na Galiza. Tese de Doutoramento. Universidade de Santiago de Compostela.
Vicente, M. (1995). Antoloxía poético-musical rianxeira. Rianjo: Concelho de Rianjo.
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